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SUBSTITUIÇÃO DE CONTADORES DE EIXOS POR CIRCUITOS DE
VIA E O CONSEQUENTE AUMENTO DA DISPONIBILIDADE DE ROTAS
NO TRECHO SINALIZADO.
Menção Honrosa no III Prêmio Amsted Maxion de Tecnologia Ferroviária; trabalho apresentado no seminário técnico no Negócios nos Trilhos – Encontrem 2005, outubro de 2005, São Paulo.
Autor: Jedson Luís Lopes Goularte, coordenador de sinalização na ALL
E-mail: jedson@all-logistica.com
RESUMO
Projeto de substituição de 15 contadores de eixos por circuitos de via durante os anos 2004 e 2005 que gerou aumento de 58% no aumento da disponibilidade de rotas sobre as seções de via intermediárias (localizadas entre dois pátios de cruzamento adjacentes) ganho do recurso de detecção de trilhos quebrados no trecho sinalizado controlado pelo Centro de Controle Operacional (CCO).
INTRODUÇÃO
Este trabalho tem como objetivo a descrição da troca de circuitos de via por contadores de eixos, realizada no trecho sinalizado – CTC (Controle de Tráfego Centralizado) - de uma operadora ferroviária, abordando tipos de equipamentos utilizados e resultados obtidos.
Contadores de eixos e circuitos de via executam a mesma função: percepção da presença de composições ferroviárias em uma seção de via definida. O que muda é a forma de como fazem isso.
DEFINIÇÕES
Contador de eixos
É composto por uma unidade central avaliadora (AVALIADOR) e sensores instalados nas extremidades da seção de via que se deseja monitorar (seção de bloqueio). A comparação entre a contagem dos eixos que invadem a seção de bloqueio e a contagem daqueles que a deixam leva o AVALIADOR a acusar via “livre” ou “ocupada” (BLOQUEIO).

Figura 1: Utilização de um contador de eixos
O AVALIADOR fica instalado na sala de equipamentos de um dos pátios de cruzamento. A conexão aos sensores locais (mesmo pátio de cruzamento) é realizada por cabos metálicos. A conexão aos outros sensores (extremidade oposta da seção de bloqueio) é realizada por fibra ótica e equipamentos de interface.
Quando a seção de bloqueio está livre, o AVALIADOR energiza a bobina de um relé vital, o qual possui um repetidor no pátio localizado na outra extremidade da seção de bloqueio. Os contatos desses relés são intertravados com a abertura de rotas sobre a seção de bloqueio.
O AVALIADOR utilizado por esta operadora ferroviária é o AzL-70 (Fotografia 1):

Fotografia 1: AVALIADOR AzL-70

A existência de equipamentos com alto grau de exposição, conforme ilustrado nas fotografias 2, 3 e 4, torna o sistema contador de eixos bastante vulnerável a atos de vandalismo. Além disso, devido a uma certa fragilidade do EAK30 quanto à ocorrência de transientes eletrônicos originados de descargas atmosféricas, o equipamento apresenta alto índice de falhas durante dias em que ocorrem tempestades.
Circuito de via
Conjunto de equipamentos montados em armários de equipamentos instalados no campo, ao longo da ferrovia (locação) que implementam sinais elétricos de transmissão e recepção, utilizando os trilhos da seção de via monitorada (seção de bloqueio) como meio de propagação. Se o sinal de transmissão chegar à recepção, um relé vital tem sua bobina energizada. Para cada relé receptor de circuitos de via, existe um repetidor dentro de uma sala de equipamentos, os quais têm seus contatos intertravados com as aberturas de rotas.

Figura 2: Operação de um circuito de via
No projeto do CTC da operadora ferroviária, todos os pátios de cruzamento possuem tipicamente seis circuitos de via: Via Principal, Via Reversa, AMV esquerdo, AMV direito, Aproximação esquerda e Aproximação direita. Já as seções de bloqueio (intermediárias) em alguns casos são monitoradas por circuitos de via e outros, por contadores de eixos.

Figura 3: Disposição típica de circuitos de via ou contadores de eixos
A maioria dos circuitos de via utilizados na operadora ferroviária, transmitem sinais em forma de onda senoidal. Cada um deles possui filtros seletivos de frequência. Circuitos de via adjacentes devem possuir diferentes frequências de operação para se evitar o risco de um receptor responder equivocadamente à transmissão de um outro circuito de via.
Já que o circuito de via utiliza os trilhos como meio de condução de sinais eletrônicos, trilhos quebrados impedem que o sinal chegue ao receptor, o que provoca uma falsa indicação de via ocupada. Isto quer dizer que os circuitos de via oferecem o “recurso extra” de detecção de trilhos quebrados.
COMPARAÇÕES
Através das percepções e experiências das equipes de manutenção desta operadora ferroviária, foi elaborada uma tabela de comparação entre a operação dos dois equipamentos:
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CIRCUITO DE VIA |
CONTADOR DE EIXOS |
Comprimento da seção de bloqueio |
Limitada. Máximo de 6 Km, dependendo do equipamento |
Ilimitada. Depende da utilização de fibra ótica |
Utilização de armários de locação |
SIM |
NÃO |
Utilização de bondeamentos |
SIM |
NÃO |
Utilização de talas isoladas |
SIM |
NÃO |
Tempo para manutenção corretiva |
MÉDIO / ALTO |
BAIXO |
Imunidade a descargas atmosféricas |
MÉDIO / ALTO |
BAIXO |
Imunidade contra vandalismo |
MÉDIO / ALTO |
BAIXO |
Eletrônica |
SIMPLES |
COMPLICADO |
Adquirir peças de reposição |
RAZOAVELMENTE SIMPLES |
COMPLICADO |
Detecção de trilhos quebrados |
SIM |
NÃO |
A baixa disponibilidade dos contadores de eixos durante fortes chuvas, sua vulnerabilidade a atos de vandalismo e, principalmente, a detecção de trilhos quebrados por parte dos circuitos de via levaram a operadora a iniciar a troca de 15 contadores de eixos por circuitos de via durante os anos de 2004 e 2005.
CIRCUITO DE VIA TIPO REED
Todos os circuitos de via instalados na ocasião da montagem do CTC da operadora ferroviária são do modelo REED (1) e foram produzidos pelo fabricante britânico GEC, existindo dois tipos: transmissão em alta potência e transmissão em baixa potência.
As aproximações recebem circuitos de via de alta potência. Praticamente todos os circuitos de via de vias principais e reversas são de alta potência também. Apenas os circuitos de via de AMV´s e linhas de início de trecho sinalizado são implementados por equipamentos de baixa potência.
Nota (1): A operação de circuitos de via REED é de um certo grau de complexidade, já que requer a utilização de fontes de alimentação, amplificadores de potência, osciladores, filtros seletivos, atenuadores e relés, além de proteções eletrônicas necessárias a todos os equipamentos instalados em armários de locação instalados ao longo da ferrovia.

Figura 4: Blocos de circuitos de via REED (transmissão e recepção)

Fotografia 5 – Disposição de equipamentos necessários para implementação de um
circuito de via REED montados no interior de um armário de locação
Os equipamentos REED de alta potência podem implementar um circuito de via de aproximadamente 3.000 metros. Já aqueles de baixa potência implementam um circuito de via com aproximadamente 1.400 metros.
COMPRIMENTO E TRANSMISSÃO CENTRAL
O critério utilizado para definir quais contadores de eixos seriam substituídos inicialmente, foi o comprimento da seção de bloqueio. As três primeiras seções de bloqueio alteradas possuíam 1.380, 1.210 e 1.930 metros, respectivamente. Em todas elas foram instalados equipamentos REED de transmissão de alta potência.
Das 10 seções de bloqueio que receberam circuitos de via no lugar dos originais contadores de eixos em 2004, quatro delas possuíam comprimentos superiores a 3.200 metros. Para se implementar circuitos de via nesses locais foi necessário utilizar pontos de transmissão central, conforme ilustra a figura a seguir:

Figura 4: Representação de um circuito de via com transmissão central
Com transmissão central, pode-se duplicar o comprimento do circuito de via. Assim um circuito de via de REED GEC de alta potência pode ser estendido até 6.000 m. A principal desvantagem é a necessidade de pontos de alimentação intermediários, nem sempre disponíveis, ou se disponíveis, carentes de energia estabilizada.
Dos quatro circuitos de via montados com transmissão central, um deles utilizou energia originada de uma sala de equipamentos do CTC (já estabilizada em com grupo gerador para garantir o abastecimento). Para os outros três, foram montados armários de locação com no-breaks e bancos de baterias que oferecem uma autonomia de quatro horas durante falhas no abastecimento da concessionária de energia elétrica.
PRIMEIRAS CONCLUSÕES
Ao final das 10 primeiras trocas realizadas em 2004, as conclusões dos responsáveis pelo projeto e subsequente manutenção dos novos circuitos de via foram as seguintes:
- Os 3 circuitos de via com pontos de transmissão central alimentados diretamente da concessionária local de energia foram os que apresentaram menor confiabilidade dentre todos os novos – Tal opção deveria ser evitada em futuras trocas.
- Os circuitos de via REED de baixa potência instalados em alguma vias principais e reversas substituindo equipamentos de alta potência apresentaram alta confiabilidade – Boa opção para se gerar equipamentos de alta potência necessários em seções de via intermediárias.
- As proteções mecânicas e cadeados alternativos integrados aos novos armários de locação mostraram-se 100% eficazes: nenhum caso de arrombamento registrado, embora houvesse a tentativa em um dos locais – Vandalismo representa então, um baixo risco.
- Necessidade de obter nova(s) alternativa(s) para as outras trocas que viriam em 2005, já que a quantidade de equipamentos REED de alta potência disponíveis ou que seriam gerados seria insuficiente.
TROCAS REALIZADAS EM 2005
Em 2005 o projeto de troca de outros 5 contadores de eixos por circuitos de via deveria levar em consideração as distâncias das seções de bloqueio envolvidas e os custos de aquisição de novos equipamentos, já que conforme dito no item anterior, não havia equipamentos REED em quantidade suficiente. As primeiras procuras por equipamentos REED GEC apontaram uma pequena oferta e custos considerados impraticáveis.
Circuitos de via DC
A solução encontrada foi a compra de relés vitais de alimentação DC, fabricados pela australiana SELECTRAIL, além dos demais componentes necessários para a montagem de um circuito de via tipo DC (transformadores, resistores e retificadores). O custo final, comparando-se com os circuitos de transmissão e recepção REED era aproximadamente 70% menor. Esses circuitos de via tipo DC substituíram equipamentos REED de baixa potência montados em seções de via de 100 metros de comprimento localizadas em entradas do trecho sinalizado (CTC).

Os equipamentos de baixa potência retirados das seções de entrada do CTC substituíram equipamentos de alta potência montados em vias principais e reversas, os geraram novos equipamentos para a substituição dos contadores de eixos das duas seções de bloqueio de comprimento inferior a 3.000 metros.
Das 5 seções de bloqueio que deveriam receber circuitos de via, três possuíam mais que 4.000 metros de comprimento, o que inviabilizava a utilização de um circuito de via REED (já que a utilização de ponto de energia central abastecido pela concessionária de energia não era uma boa opção, conforme dito anteriormente). Para essas seções de bloqueio, a solução foi a aplicação de equipamentos R-CODE fabricados pela SAFETRAN.
R-CODE
O equipamento SAFETRAN R-CODE é utilizado aos pares. Um deles é o transmissor e o outro o receptor. O transmissor transmite um código digital continuamente e o receptor, ao detectá-lo, energiza a bobina de um relé vital (neste projeto, o mesmo das recepções dos circuitos de via REED – GEC ZS2411).
Os circuitos de via implementados com R-CODE podem ter o comprimento de 6.000 metros. Isso sem um ponto de transmissão central, usando-se apenas a infra-estrutura já existente – armários de locações com energia originada das salas de equipamentos nas duas extremidades da seção de bloqueio que se deseja monitorar. Considerando-se também a simplicidade na montagem e configuração, a relação CUSTO X DISTÂNCIA tornou-se bastante interessante como solução para as três seções de bloqueio com distância superior a 4.000 metros.
Nota: um mesmo R-CODE pode ser configurado como transmissor ou receptor.

Figura 6: Blocos de circuito de via com R-CODE (transmissão e recepção)
Fotografia 8: R-CODE
RESULTADOS
Para avaliar o sucesso ou não da troca dos contadores de eixos por circuitos de via, foram medidos o número de falhas que aconteceram apenas nas seções de bloqueio que sofreram a troca de contadores de eixos por circuitos de via e o número de falhas em todas as seções de bloqueio monitoradas por contadores de eixos.
Os gráficos abaixo mostram os resultados obtidos.


Análise:
- Gráfico 1: O número de falhas do primeiro semestre de 2004 foi praticamente igual ao primeiro semestre de 2003, mesmo com a conclusão das primeiras trocas. Isso deve-se ao número elevado de falhas em alguns dos novos circuitos de via – período inicial de ajustes e melhorias.
- Gráfico 1: O número de falhas ocorridas durante o ano 2004 foi 9,75% inferior a 2003.
- Gráfico 1: O número de falhas ocorridas durante o primeiro semestre de 2005 foi 9,46% menor que o mesmo período de 2004.
- Gráfico 1: O número de falhas projetado para 2005 é 3% inferior a 2004 e 12,5% inferior ao ano 2003.
- Gráfico 2: A interrupção (em horas) do funcionamento dos equipamentos monitores das seções de bloqueio envolvidas em trocas, mais aquelas que continuaram com contadores de eixos durante o primeiro semestre de de 2004 foi 43,1% superior ao mesmo período de 2003. Isso deve-se ao número elevado de falhas em alguns dos novos circuitos de via instalados durante o primeiro semestre de 2004.
- Gráfico 2: A interrupção (em horas) durante o primeiro semestre de 2005 foi 40% inferior ao mesmo período de 2003 (anterior ao início das trocas).
- Gráfico 2: A interrupção (em horas) durante o ano 2004 foi 29% inferior a 2003, mesmo com o mau desempenho registrado durante o primeiro semestre, devido à adaptação dos novos circuitos de via.
- Gráfico 2: A interrupção projetada (em horas) para o ano 2005 é 58% inferior a 2003 (antes do início das trocas)
CONCLUSÕES
A troca de contadores de eixos por circuitos de via realizada em 10 seções de bloqueio durante os anos de 2004 e 2005 foi considerada um sucesso.
Apesar da manutenção corretiva de circuitos de via ser mais demorada e desconfortável (necessidade de ir a armários de locação ou percorrer distâncias de até 6.000 metros sobre a ferrovia) quando comparada com a manutenção corretiva dos contadores de eixos (“RESET” na maioria dos casos); as substituições continuarão sendo realizadas - a operadora ferroviária dona do projeto, já manifestou o desejo de não possuir mais contadores de eixos ao final de 2006.
Uma grande vantagem adicional foi obtida com o projeto: a detecção de trilhos quebrados. Os novos circuitos de via instalados foram responsáveis pela detecção de 8 ocorrências durante os anos 2004 e 2005.
O sucesso ficou evidenciado no tempo de interrupção provocado por falhas (considerando-se apenas as seções de bloqueio alteradas e aquelas que ainda continuam com contadores de eixos) que foi reduzido em 58% (número projetado para 2005) em 2 anos. Erros cometidos durante o projeto de 2004 (10 trocas) foram evitados no projeto 2005 (5 trocas).
Além do aumento da disponibilidade de rotas para a circulação, levando à redução nos atrasos de trens, alguns custos diretos de manutenção foram evitados, tais como horas extras, pedágios e combustíveis. O projeto ainda permitiu o desenvolvimento de conhecimentos técnicos das pessoas envolvidas. Isso aliado aos “bons frutos” colhidos e o consequente apoio da diretoria da operadora ferroviária, gerou grande satisfação na equipe responsável pela manutenção do trecho sinalizado.
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