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Volta do investimento privado fica mais distante com covid-19

  25/05/2020
person Valor Econômico
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Volta do investimento privado fica mais distante com covid-19 Fonte: Cemec/Fipe

Pela primeira vez desde 2010, a taxa de retorno dos investimentos superou o custo de capital para as empresas de capital aberto, mostra levantamento com dados de 2019 do Centro de Estudo de Mercado de Capitais (Cemec) da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe).

O resultado abriria espaço para que as companhias aumentassem a capacidade produtiva neste ano, ajudando a acelerar o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), estacionado em 1% desde 2017. Mas a pandemia do coronavírus bagunçou as planilhas de custos e vai interromper a frágil recuperação econômica.

Segundo o Cemec, a taxa de retorno de companhias com capital aberto ficou em 11,3% no ano passado, acima do custo de capital (10,8%). Embora os dois itens tenham caído em 2019, o recuo foi mais intenso no segundo. O recorte considera os balanços das maiores empresas de capital aberto, sem Petrobras, Eletrobras e Vale. Com inclusão das três, o dado é um pouco menos favorável: o custo de capital foi de 10,6%, e o retorno, de 10,4%.

Em ambas as métricas, a sinalização era de que condições mais vantajosas para ampliar a capacidade produtiva estavam dadas. Mesmo assim, não foi o que se observou. No conjunto das companhias abertas e fechadas, o investimento foi equivalente a 3,6% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2019, queda ante os 3,86% registrados no ano anterior, revertendo a trajetória de recuperação observada desde 2017.

A queda só não foi mais brusca porque as empresa fechadas ampliaram o investimento de 0,67% para 1,3% do PIB entre 2018 e 2019, enquanto as companhias abertas retrocederam de 3,19% para 2,3% do PIB. O estudo analisou os balanços de 1.941 empresas não financeiras, sendo 305 empresas de capital aberto e 1.636 empresas fechadas.

"O investimento realizado pelas empresas vem escorregando sistematicamente e em 2019 foi cerca de metade do de 2014", afirma Carlos Antonio Rocca, coordenador do Cemec-Fipe.

De modo agregado, a taxa de investimento total (Formação Bruta de Capital Fixo), que inclui o que investiram empresas, famílias e governo, desenha um cenário levemente mais positivo: subiu para 15,11% em 2019, de 14,83% em 2018, mas ainda longe do pico de 21,83% em 2011. Os números são diferentes dos apresentados pelo IBGE nas Contas Nacionais por se basearem nas demonstrações financeiras de uma amostra de companhias.

Apesar do resultado adverso, Rocca diz que algumas premissas apontavam para uma melhora do cenário. "A expectativa de aceleração das taxas de crescimento e da manutenção de baixas taxas de juros por alguns anos poderia sustentar a perspectiva de alguma retomada dos investimentos [a partir de 2020]", afirma.

O que não estava na conta era o brutal choque na atividade econômica e nas condições de financeiras a partir de março, quando começaram as medidas de isolamento social nas principais regiões do país para conter a disseminação do vírus.

"Com o impacto da pandemia do covid-19 e das medidas de quarentena e de afastamento social necessárias para prevenir o colapso do sistema de saúde, esses resultados perdem significado para formular expectativas para o investimento das empresas daqui por diante", destaca o levantamento do Cemec.

Mesmo sem o compilado dos balanços do primeiro e segundo trimestres, Rocca afirma que é possível cravar uma piora nos investimentos daqui para frente a partir de alguns indicadores.

A expectativa para o PIB na pesquisa Focus, do Banco Central, é um deles. Para os investimentos, o horizonte mais observado é a projeção para o crescimento para os três anos seguintes. O indicador já vinha em trajetória de queda em 2019 e estava em 2,52% (de 2,58% em 2018 e 2,71% em 2017). Agora, aponta para crescimento médio de 0,9% ao ano no próximo triênio.

Segundo o coordenador do Cemec, a magnitude da crise dificulta a adaptação das empresas aos novos tempos. "As companhias não conseguem ajustar os custos na mesma velocidade da perda de geração de receita", diz.

Como resultado, as variáveis para fechar uma decisão de investimento terão piora acentuada. "A taxa de retorno certamente terá um escorregão no segundo trimestre. Por outro lado, pioram as condições financeiras, com aumento do risco-país e taxas de juros longas, o que eleva o custo de capital", explica Rocca.

Com expectativa de elevado déficit primário do governo federal em 2020 por causa das medidas adotadas para enfrentar a crise, Rocca diz que não haverá espaço fiscal para estimular o crescimento. E, por consequência, as perspectivas mais fracas para o PIB nos próximos anos e aumento da capacidade ociosa, já elevada mesmo antes do choque do coronavírus, só vão reforçar o receio de empresários nas decisões sobre investimentos.

O pesquisador sugere que, neste cenário de pessimismo econômico, o governo deveria criar um plano  de longo prazo, de ao menos dez anos, para investimento em infraestrutura. O plano seria financiado substancialmente por capital externo em momento de grande liquidez e juros negativos ou próximos de zero que deverá prevalecer mesmo após a superação da crise.

Fonte: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2020/05/25/volt...