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Como será a vida nas cidades após essa pandemia?

  25/05/2020
person Folha de São Paulo (Coluna)*
person Folha de São Paulo (Coluna)*
Como será a vida nas cidades após essa pandemia? Bombeiros iranianos desinfetam as ruas da capital Teerã, na tentativa de barrar a propagação do novo coronavírus pelo país AFP

Não há dúvidas que a vida nas cidades tem sido drasticamente afetada pelos efeitos da Covid-19, mas sabemos que, em algum momento, tudo isso vai passar. Será que quando isso acontecer necessitaremos do mesmo espaço que vínhamos utilizando nos locais de trabalho, uma vez que as conferências virtuais se mostraram tão eficientes? As pessoas vão se sentir confortáveis em vagões de metrô ou ônibus superlotados? As pessoas vão continuar a frequentar restaurantes e bares como antigamente? Para responder a essas e outras perguntas sobre o futuro da vida nas cidades, a revista americana Foreign Policy entrevistou alguns dos maiores pensadores urbanos do mundo.

Segundo Richard Florida, após choques como esse pelo qual passamos, as previsões são sempre no sentido de que as cidades vão morrer, mas a urbanização tem se mostrado uma força muito maior que as doenças infecciosas. A peste negra dizimou cidades da Europa, durante a Idade Média, e da Ásia, até o início do século 20. A gripe espanhola de 1918 matou cerca de 50 milhões de pessoas em todo o mundo e, no entanto, Nova York, Londres e Paris cresceram rapidamente. Na verdade, pode haver uma oportunidade para nossas cidades inacessíveis e hipergentificadas redefinirem e reenergizarem sua criatividade.

Edward Gleaser afirma que, somente nos Estados Unidos, 32 milhões de empregos são de varejo, lazer e hospitalidade. Eles estão na linha de frente da pandemia. Uma pesquisa recente descobriu que 70% dos restaurantes menores esperam ser fechados permanentemente se a crise da Covid-19 durar quatro meses ou mais. Se as pandemias se tornarem o novo normal, dezenas de milhões de empregos em serviços urbanos desaparecerão. A única chance de impedir esse Armagedon no mercado de trabalho é investir bilhões de dólares de maneira inteligente em infraestrutura antipandêmica de assistência médica, para que esse terrível surto possa permanecer uma aberração única.

Thomas J. Campanella lembra que as cidades sofreram terríveis pandemias ao longo da história, mas floresceram para crescer cada vez maiores e mais densas. A temida contração da vida urbana após a Covid-19 será temporária. A pandemia atual é apenas o mais recente pivô histórico a ter especialistas prevendo a morte da cidade. É certo que, após a Covid-19, muitos de nossos bares, restaurantes e cafés favoritos desaparecerão, mas outros tomarão seu lugar. Os idosos e os imunocomprometidos podem evitar espaços urbanos por um tempo, mas a população mais jovem voltará rapidamente a utilizá-los. E o inevitável medo persistente de infecção será combatido por um efeito rebote da quarentena: as pessoas se esforçarão para sair do confinamento, famintas pelas simples alegrias de estarem, sem medo, próximas umas das outras, em locais movimentados.

As cidades voltarão mais fortes do que nunca após a pandemia, afirma Don Doctoroff. Mas quando o fizerem, será impulsionado por um novo modelo de crescimento, que enfatiza a inclusão, a sustentabilidade e as oportunidades econômicas. Reviver o crescimento da população urbana após a pandemia começará com a restauração da confiança na saúde pública urbana e na segurança da vida em locais mais adensados. Métodos de construção mais baratos e flexíveis podem reduzir o custo da habitação e diminuir drasticamente a pegada de carbono dos novos edifícios. Novas opções de mobilidade e extensões de transporte público podem ajudar os moradores a se deslocar em segurança. Se aproveitarmos esta oportunidade para construir melhor, as cidades não apenas se recuperarão, mas oferecerão maiores oportunidades do que antes do ataque da Covid-19.

Muitas são as teorias e previsões, controversas ou coincidentes. Contudo, parece claro que vamos superar mais essa crise, e as cidades voltarão a crescer, por certo de forma diferente do que vinha acontecendo. Portanto, devemos estar atentos e preparados para nos adaptarmos rapidamente a essa nova vida nas cidades, que seguramente virá.

*Claudio BernardesEngenheiro civil e presidente do Conselho Consultivo do Sindicato da Habitação de São Paulo. Presidiu a entidade de 2012 a 2015.

Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/claudiobernardes/...