Um carro é um carro

Gerson Toller, /jornalista

“Não é o mercado que agoniza, é uma forma ultrapassada de capitalismo que desaparece porque deixou de ser desejável”.

Pascal Bruckner, escritor e ensaísta.

Ninguém apura esse dado, mas existe um fenômeno muito novo acontecendo entre nós: os jovens da classe média para cima, os mais bem informados, entre os 18 e vinte e poucos anos, não querem mais tirar carteira, nem dirigir, e muito menos ter carro. O que era impensável há três gerações passadas está aí para ser visto:  é o não desejo de mobilidade – eles preferem ficar na internet; a não necessidade de independência, que eles já tem de sobra, e a ausência das fantasias do banco de trás do automóvel. Os três argumentos mais fortes dos vendedores de automóveis.

No meu tempo, no Rio de Janeiro, a única maneira de ficar sozinho com uma garota “direita” era parar o automóvel de noite, de frente para o mar, tudo escuro, e ficar assitindo “corrida de submarino”. Hoje é proibido estacionar de frente, está tudo iluminado, e se você não é multado pelos guardas é assaltado pelos pivetes. Muito mais seguro e confortável é o quarto dela na casa dos pais.

Como ninguém parece interessado em produzir estatísticas sobre quem não compra automóvel (algum leitor conhece?), fiz uma pesquisa com ala jovem que me cerca e obtive as seguintes respostas:

- é muito chato tirar carteira;

- não gosto de dirigir;

- prefiro gastar meu dinheiro com outras coisas;

- prefiro investir na bolsa (a questão do dinheiro parece mais importante do que nunca);

- prefiro andar de taxi.

Admito que não é um fenômeno universal, principalmente nas famílias onde o carro é, ainda, sonho de consumo. Nada cresceu tanto este ano, movido pela redução do IPI, do que a venda de carros 1.000 (76.6 % de aumento nas vendas entre janeiro e outubro). Mas aquele poder de sedução dos anos dourados,  do “meu carro é vermelho / só uso espelho pra me pentear”, foi embora junto com o “splish splash fez o beijo que eu dei”. Ninguém mais vai ao cinema para dar um beijo, e o carro é só um carro. Que aliás está ficando cada vez mais difícil de dirigir no trânsito, e que custa uma porção de taxas e pedágios, e que ainda por cima não pode ser usado nas baladas por causa da Lei Seca.

Me lembro de mim mesmo, com uns 16 anos, olhando para um Aero Willys  (juro) e fazendo o propósito de ter um daqueles quando crescesse. Será que isso acontece hoje em dia? Não sou publicitário, mas acho que os garotos de 16 querem mais ficar ricos e famosos. E se pensam em carro, é numa limo com motorista, que eles gostariam sim de alugar.

Então, minha gente, vamos investir em transporte público. Pensem o seguinte: a Jovem Guarda, aquela do Roberto e do Erasmo,  está indo embora. E os que estão chegando  não acham automóvel assim tão importante. Também não gostam de ler jornal de manhã, nem de tomar café, nem de fumar cigarro. Não tem opinião política mas sabem que o mundo está derretendo por causa do aquecimento global, e que essa bomba vai estourar no colo deles.  São novas pessoas. Qualquer vendedor de qualquer produto ia adorar isto: consumidores jovens, modernos e ligados. Criadores de tendência. Que prefeririam andar num VLT todo de vidro com wifi, por exemplo, a comprar mais um automóvel para botar ruas. É só fazer a pesquisa. E, naturalmente, ter os VLTs para oferecer à galera.

15 comentários para “Um carro é um carro”

  1. TMT operações ferroviarias disse:

    Muitas vezes esquecemos que governamos(também de governaça corporativa) para essas pessoas, que a nossa missão é construir a infraestrutura necessária para o modo de vida dessa geração vindoura.
    Quando simplesmente imitamos o passado, multiplicando-o, na esperança de que estamos cumprindo o nosso papel, erramos, e muito.
    Viver o seu dia, sabendo que permanecerá no cockpit de um automóvel durante 4 hs não parece uma existência fantástica e agradável. Aonde está o jovem da periferia nessas 4 hs? Será que é pior?
    Isso fundamenta também a mudança de paradigmas, uma vida besta, preso num casulo por horas e horas todos os dias.Sabemos a importância dos tributos da indústria automobilistica, ela alavanca um estado maior e mais poderoso, escalar, porém, quais são os qualitativos desse Estado, na estratégia de longo prazo. Essa geração, como disse o Gerson, não vê mais sentido no alcool, no cigarro, nas drogas, no contato físico com superlativo de construção do relacionamento, e recentemente, não condicionam a evolução da sociedade num comportamento energívoro, mesmo o açucar é visto de forma mais ponderada. É a geração da ponderação sistemica dos computadores, as empresas não sabem como aproveitar o potencial dessa geração Y, é a geração que busca o equilíbrio sistemico. Não é só comprar canetas “globalizadas” a globalização já é o passado, surgem movimentos que promovem o consumo local, bairros como o de Vauban, na Alemanha, onde não circulam carros e o comercio é centralizado. Proporcionar frutas na entressafra não tem mais o mesmo significado que tinha para a “Jovem Guarda”.
    A missão transcende o ato de levar a geração Y de um ponto ao outro no Rio ou Porto Alegre, esperam dos governantes que seja não energívora, como seus celulares, notbooks, PDA’s

  2. Santiago Wessner disse:

    A grande realidade é que, nas últimas duas décadas, o automóvel tornou-se muito mais acessível do que era antigamente, e com isso passou a ser finalmente entendido como um mero bem-de-uso, e não mais como um simbolo de status social – ainda bem.
    Frente à tradicional insuficiência e precariedade dos nossos transportes públicos, os cada vez mais mumerosos automóveis passaram a dominar a paisagem. Afinal, se agora é possivel comprar um automóvel, pra quê se espremer em ônibus lentos, impontuais e superlotados, ou ainda em trens e metrôs cada vez mais saturados?? E lógicamente o outro lado da moeda não demora em aparecer: Milhões de novos automóveis nas ruas, congestionamentos enormes e cada vez mais constantes, índices de poluição cada vez mais alarmantes, mais acidentes de trânsito, mais doenças cardio-respiratórias, mais stress, e cada vez menos qualidade de vida.
    A solução?? Todos nós conhecemos e clamamos por ela: Planejamento sério e investimentos efetivos no transporte público urbano, aonde o metrô deverá necessáriamente ser o principal modal estruturador, o que infelizmente ainda está longe da realidade.
    O mais promissor que temos hoje é o tal Expansão-SP que, mesmo tendo lá os seus méritos, consiste muito mais em remodelar a rede já existente de trens de subúrbrio (CPTM), aplicando-lhe o rótulo “metrô-de-superfície”, e na conclusão de alguns antigos projetos de expansões na rede do Metrô, e agora também numa enxurrada de projetos de monotrilhos “tirados da cartola”. No entanto não se prioriza uma real e verdadeira expansão da rede metroferroviária, que contemplasse tanto novas linhas e extensões às muitas regiões da nossa metrópole, que ainda dependem de ônibus e automóveis, quanto novas linhas nas regiões centrais que desafoguem as linhas já existentes. Custa dinheiro? Sim, aqui e em qualquer lugar do mundo, mas é A verdadeira e definitiva solução! Se o Brasil quer ser realmente grande, precisa planejar a médio e longo prazo!
    Com mais e melhor transporte público, quem hoje utiliza diariamente os automóveis deixará naturalmente de fazê-lo, mesmo quem gosta muito de dirigir (que é o meu caso)! Afinal, se existir uma rede eficiente e integrada de transporte público, pra quê tirar o automóvel da garagem, se aborrecer e perder tempo no trânsito??

  3. Protrem disse:

    Qual é o desejo da mobilidade: “deixar o carro em casa” e utilizar o transporte público.
    NÃO! Pois há uma “parte” dele que (transporte público) não presta, não cumpre sua suposta função…..
    A integração mais correta é a do automóvel-trilhos, aonde o cidadão sai de sua residência em direção à estação, deixa seu carro e vai ao trabalho por trilhos. O mesmo vale para “bicicleta-trilhos”, isto quando os próprios trilhos não estão adjacentes às nossas moradias (mais desejável ainda)
    Não estou de forma alguma defendendo o setor automobilístico, mas há situações e que somente o veículo particular resolve, (Levar um filho com febre ao médico é uma delas…) mas a realidade está tornando o dirigir um “porre”, relegando ao necessário. Nada de “sair para rodar” nos finais de semana, mas precisamos de mais trilhos.

  4. Marcos André Costa Archiviti disse:

    Este assunto e muito empolgante para nossa epoca, mas vejamos, já existia a muito tempo atrás, trens que ia do Centro de São Paulo, até os confins de Guarulhos, antiga Base Aerea de Cumbica, tinhamos tb trens que sai de São Paulo para o Rio de Janeiro e Minas Gerais e até Brasilia, e nossos governantes não se preoculpava com o povo, e colocaram carros nas ruas, ( Hoje em dia super necessário), por que não tem condução para todos os lugares, morro no Cohab Brasiliandia e trabalho no Campus da USP, em tempo não construiram a Estação USP do metro no campus e sem bem fora deles, será problema politico, para ir até o Campus vamos ter que pegar outro onibus ou vão colocar bicicletas tb, afinal o que vão construir agora, para o povo ou para TURISTA, para que eu va trabalhar tenho que pegar o Rodoanel, que era de graça e agora temos que pagar. A minha pergunta acho que com o passar do tempo os jovens vao ter que se contentar em trabalhar em casa com seus notbooks, e pronto, não poderam nem pegar onibus ou trens, por que senão ficara muito desgastantes (R$). Afinal de contas eles agoram so podem trabalhar com 16 anos, no tempo da Jovem Guarda trabalhavamos com 14 anos, sem tocar no assunto Previdência, o que será da nossa Juventude ? Quantos custaram os VLT ? DEUS TOMA CONTA DE NÓS. !!!

  5. Revista Ferroviária disse:

    Vamos Marcos André, a coisa não está assim tão preta. Se tem muito carro na rua, tanto que não anda, é porque o povo tem dinheiro para comprar. E p governo Serra está aplicando no Metrô e na CPTM o maior investimento já visto em um governo. É que são anos e anos de prioridade para o automóvel. Eu quando era garoto ia de bonde para o colégio. Cadê os bondes? Ia de trem passar as férias no interior. Cadê o trem? Então é isso, vai levar algum tempo para voltar, bota aí mais uns 20 ou 30 anosmas que volta volta. Já imaginou São Paulo daqui a 20 anos sem metrô para todo lado? Não vai ter jeito.

  6. Dalmo Marques disse:

    Tenho que discordar do TMT, aqui em São Paulo, não dá para abrir mão do carro, devido à falta de transporte público descente. Ainda é melhor ficar dentro do carro e sentado durante quatro horas, do que ficar em pé e esmagado dentro dos ônibus. A secretária da empresa é um bom exemplo, de carro ela gasta 30 minutos no trajeto diário entre sua casa e o escritório, se usar o sistema de coletivos, gasta duas horas. Pergunto; dá para convencer alguém que possui carro trocar por coletivos?
    Concordo com o Santiago, o carro está se tornando um bem de consumo mas ainda muito lentamente, ainda estamos longe parecer com os americanos que se relacionam melhor com os carros.
    Meu filho tem treze anos e é fissurado em automóveis, assim como seus colegas, pelo que posso observar eles deverão ter carros próprios, nem pensam em andar de ônibus e eu não os encorajo porque, o nosso sistema é um lixo como disse o Protrem.
    Também, devo concordar que em algumas atividades o automóvel é imprescindível, ainda mais em São Paulo, que é uma cidade espalhada, ou seja não tem um centro definido.
    Aqui tem centenas de problemas que causam engarrafamentos, que não são nem mencionados pelos “ESPECIALISTAS” do transporte, como, excesso de veículos de fora da cidade que aqui circulam, é muito carro com placas do interior do estado, de outros estados e até da Argentina, Paraguai e Uruguai, ocupando as vias da cidade, sem pagar nada por isso. Tem também o fato da falta de sinalização adequada, que facilitaria a fluidez do trânsito se indicasse de forma clara e objetiva aos motoristas o caminho a seguir, mas o mais grave que vejo diariamente é a falta de educação dos motoristas que insistem em provocar congestionamentos, seja parando em locais proibidos, seja andando de forma lenta em relação ao fluxo normal e não dão passagem a quem está mais rápido, tem ainda o pessoal que não sabe dirigir e são muitos, mas tem a licença, é um pessoal apavorado com o trânsito, tem medo e insegurança de andar ao lado de outros veículos.
    Sim, nos falta planejamento sério, mas também nos falta conhecimento técnico e bom senso para fazer normas que funcionem, não estas barbaridades que vemos por aí. Metro é a solução, mas uma melhoria no sistema de ônibus em São Paulo seria um alívio para os usuários, só que ninguém pensa nisso, ao contrário só se fala em aumentar as restrições do rodízio de automóveis e em pedágio urbano, isso é a mesma coisa que comprar um sapato chinês feito de material sintético,é barato, dá para andar com ele, mas, dura muito pouco ou seja é uma porcaria, logo acaba e será necessário outro par.
    Assim vejo as soluções que nos são apresentadas, sem pé nem cabeça, logo ela não tem mais efeito e quem de fato necessita do transporte público fica na mesma, sofrendo dentro dos ônibus.
    Precisa de mais Metro, precisa de retornar os bondes, ou VLT, como queiram, precisa de um sistema de trens como o da CPTM eficiente e precisa de um novo plano de Transportes para os ônibus antes de se falar em restrições.

  7. Revista Ferroviária disse:

    Caro Dalmo.
    Conforme sabemos todos, se uma parcela do custo social do automóvel (mortos e feridos em acidentes, horas produtivas perdidas no trânsito. espaço urbano ocupado, etc) fosse contabilizada e convertida em investimento em transporte coletivo, os problemas que você aponta seriam resolvidos. Mesmo porque esses problemas só existem por conta do excesso de automóveis nas ruas, o que por sua vez decorre, em boa parte, da falta de metrôs, vlts, monotrilhos e ônibus de qualidades. O chamado círculo vicioso. Mas tem uma coisa que eu não entendi. Você fala em cobrar pedágio dos carros que não são de São Paulo, em rigor nos estacionamentos e em melhorar a educação no trânsito e é contra as restrições? Como é que a cidade vai se defender da invasão dos automóveis senão restringindo. Eu pessoalmente sou favorável ao pedágio urbano, já adotado em Londres. Para usar seu carro dentro da cidade você tem que pagar 8 libras.

  8. Dalmo Marques disse:

    Caro Gerson
    Concordo com a sua tese, a falta de transporte público, faz com que o automóvel seja a solução imediata.
    Sou contra o pedágio urbano, porque isso é uma forma de arrecadar mais dinheiro, não é uma forma de regular o uso do automóvel, eu tenho um carro com placas de São Paulo, pago Licença e IPVA, no estado onde esta taxa é a mais cara do Brasil, daí saio na marginal do Rio Pinheiros e no meio do congestionamento todos os dias tem carros de Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, de Porto Velho e outras. Teve um secretário de estado que usava um carro com licenciado na cidade de Gonçalves, em Minas Gerais. Pergunto; é Justo?
    Se, tem que haver restrições, deve ser na entrada da cidade, nas rodovias, o sujeito quer entrar vindo de outro estado, de outra cidade, então paga uma taxa, porque, no meu IPTU, que não é barato, já pago para fazer e conservar o asfalto das marginais e outras ruas.
    Conheço várias pessoas que moram em Campinas, Santos, Sorocaba, que trabalham em São Paulo e diariamente viajam de carro até a capital, não é justo nós que aqui moramos subsidiarmos estas pessoas.
    Eu não conheço nada de Londres, mas sei que lá existe uma rede de transportes muito bem estruturada, com Metro, ônibus e os trens suburbanos, e o centro urbano da cidade fica concentrado numa região, diferente de São Paulo, que tem vários centros e nosso sistema de transporte é ineficiente, é uma bagunça sem pé nem cabeça, feito nos gabinetes, e que não serve, para o dia-a-dia da população.
    Vejo que a questão do pedágio urbano virou modismo, sou contra pedágio urbano, isso serve para cidades mais civilizadas que as nossas, também sou contra o rodízio, que não resolve nada, é ilusão. O correto é liberar geral deixar o povo se acabar nos congestionamentos, e ao mesmo tempo prover a cidade de um transporte eficiente. Quando existir uma vantagem efetiva no transporte público sobre o individual, naturalmente vamos mudar para o público.
    Os governantes e especialistas em transporte devem usar o congestionamento a seu favor, ou melhor em favor do transporte público, é uma questão de equilíbrio, quando eu gastar entre 30 e 40 minutos entre minha casa e o escritório a invés de 1,5 horas no transporte público atualmente, deixo lá o carro e sigo no coletivo, mas minha relação hoje é de 1,5 horas, para 20 minutos. Não dá para negociar.
    Dalmo

  9. Bom, se o sujeito for paulistano, não quer dirigir porque as ruas viraram um imenso estacionamento… ou seja, ninguem anda. Eu passei a usar muito mais o corredor de ônibus e o metrô/CPTM para me locomover. O problema é que a área coberta por esses três modais é pequena para uma cidade como SP. E, pior ainda, o governo está construindo linhas ferreas na cidade, mas são tantas as necessárias que haja obra. Por outro lado, ferrovias povoam as margens: em pouco tempo as linhas estão saturadas… mas tem de fazer!

  10. Revista Ferroviária disse:

    Eu acho Dalmo que as pessoas perderam a capacidade de tomar decisões racionais sobre o automóvel. Quantas pessoas sacrificam sua qualidade de vida para ter um carro de luxo? Pior: quantas pessoas acabam com suas vidas e a de seus entes queridos em acidentes nas estradas? Um dia fui de carro de São Paulo para Curitiba durante o período de safra. De repende pensei que se um marciano descesse à Terra e me visse ali no meu fusca, com uma carreta de 30 toneladas na frente e outra atrás, numa estrada de via singela, ia achar que eu era maluco. E todo mundo faz isso não é mesmo? Então, é preciso regulamentar mesmo, e restringir, como o uso de armas e de drogas. Como pode ser permitido vender um carro que marca 200 km/h no odômetro? Como pode ser permitido fabricar este carro? Para isso, Dalmo, serve o Estado e a polícia. Ou deveria servir.

  11. Dalmo Marques disse:

    Como o Ralph percebeu, não dá, para usar o transporte público em São Paulo de forma satisfatória, e isso todos aqueles que precisam de mais mobilidade, já perceberam, eu preciso muito de mobilidade e não há como abrir mão co carro. É, uma hora e meia de percurso no transporte público, contra vinte minutos de carro, não é egoísmo, é uma questão de tempo e tempo numa cidade como São Paulo significa dinheiro, é a sobrevivência, às vezes significa fechar os meses com todas as contas em dia ou não.
    No caso de São Paulo, transporte público, serve para quem tem horário para entrar e sair do trabalho, ou seja vida regrada, caso contrário, é perda de tempo.
    Concordo com o Gerson, as pessoas não tem capacidade de decidir racionalmente sobre o uso do carro, mas como disse o Santiago, é o “Status”, o poder que o automóvel dá, que leva ao uso desenfreado. Mas definir o que é carro de luxo ou não também é uma questão difícil, na terra do automóvel, desde o final da segunda guerra, praticamente todos tem ar condicionado, direção hidráulica e outros itens considerados aqui como de luxo.
    Também concordo com a insanidade de se viajar no meio de duas carretas, numa pista singela, mas, seria mais seguro andar com um carro que alcance 200 km/h, porque assim se faz a ultrapassagem de uma vez só nas duas carretas e depois se volta para a velocidade permitida.
    Não é porque o carro tem velocidade final acima dos 200km/h que vamos andar o tempo todo naquela velocidade. Acho que a restrição deve ser aplicada sobre as carretas, porque as estradas não foram feitas para elas, para o seu peso (isso vai dar discussão). O poder público, primeiro precisa entender o papel que lhe cabe na regulamentação.
    Na Suíça, não me lembro em que ano, obrigaram todos os caminhões que vão usar suas estradas como passagem, aqueles que têm origem e destino em outros países, a usar o sistema pigback, isso é racional. Agora a França está indo pelo mesmo caminho, só que eles antes de implantar as restrições, fazem um sistema alternativo que funciona, com horários e freqüência, é isso que precisamos aqui seja Jô transporte público ou no de carga, alternativas melhores e funcionais, não as restrições antes delas.
    Esta é a minha posição, o que defendo é ter opção antes das restrições e das penalidades, por isso sou contra pedágio urbano e rodízio.

  12. TMT operações ferroviarias disse:

    Porque tem que existir um modelo definitívo???
    -Agora é modal rodoviário!!!
    Projeto de Brasilia verticalizado perde, o de Lucio Costa prioriza os carros……
    -Agora é ferroviário!!!!
    Londres e os pedagios urbanos….
    Nunca gostei desses modelos afirmativos, não acredito que o privado para cargas seja o único com eficiência, nem o público.
    Porque o monomodelo????
    É difícil aceitar a existência de uma operadora ferroviária lucrando???
    E o VLT em Mogi? Realmente é um lixo de projeto?
    Para mim é simples assim, praga de gafanhotos. Desequilibrio sistêmico, reequilibre e pronto. Ficar alavancando o transporte individual não dá. E o modelo americano de consumo não é nenhum exemplo prá ninguem. E parece que virou uma espécie de padrão de imitação, eles tem tantas coisas boas para imitar, por exemplo, já teriam investido uns 2bi na pesquisa do maglev. Imita isso!!!!
    Penso num modal com diversos modelos de negócios, com diversos equipos, publicos e privados. O fato de mantermos diversos modelos vivos é o que define a nossa capacidade de gestão e projeção do futuro. Evitarmos as pragas de gafanhoto, construindo o conhecimento dos diversos modelos nas pessoas.

  13. Dalmo Marques disse:

    Caro Carlos (TMT)
    Lembrou bem vamos sempre ao encontro do Mono-modelo.
    Parece uma mania que a gente tem, algo como bairrismo, a gente torce para apenas um time de futebol (será que o Lula me perdoa por essa lembrança?), tudo na vida acaba tendendo ao mono-modelo.
    Mas no caso do transporte público penso que só existe um objetivo a ser alcançado que é uma boa malha de Metro. Alimentada por VLTs, ônibus, monotrilho e outros.
    O VLT de Mogi das Cruzes é um lixo, porque, lá já existe um trem de subúrbio servindo a cidade, aí aparece essa idéia de se tirar o Trem (grande capacidade) e substituir pelo VLT e a população gritou com toda a razão.
    Eu que vivo neste ambiente ferroviário e que por razões profissionais, acabei entrando neste assunto de transporte público, apesar de atuar mais no transporte ferroviário de cargas, vejo muita barbaridade aqui em São Paulo, que é o que conheço mais, por fazer parte do meu dia-a-dia.
    VLT, é para andar em corredores, onde não existe ainda o Metro, no centro da cidade, interligando as estações do Metro ou nas pontas dos Metros, quando não se justifica a extensão das linhas.
    Você pergunta se é possível uma operadora ferroviária dando lucro. As operadoras de carga brasileiras estão divulgando ano após ano balanços lucrativos.
    Porém, quando se fala em transporte de gente a coisa muda, eu não me lembro de ter visto nenhuma notícia sobre lucro neste seguimento, mas existem várias formas de se avaliar e sempre que vejo as avaliações elas são impossíveis de ser comparadas com o transporte por ônibus e avião.
    Por razões que conhecemos, as ferrovias investem em tudo desde os trens, estações, energia e sinalização ao passo que para transportar passageiros por ônibus, você só precisa obter uma concessão de linha e comprar os veículos, mais nada. O mesmo se aplica ao avião, o governo constrói os aeroportos, implanta e opera o sistema de controle de tráfego e elas nem compram seus aviões, optam pelo leasing e mesmo assim muitas quebram, o que não acontece com as empresas de ônibus, que é um negócio ainda melhor.
    Então se você compara as obrigações de cada um dos três no transporte de passageiros, verá que sempre a ferrovia é inviável, mas, governos de outros países, como França, Inglaterra, Alemanha, Suécia, Suíça e mais recentemente, Itália, Espanha e Portugal, que gostam de jogar dinheiro fora investem a fundo perdido nos transportes sobre trilhos, seja no urbano, seja no interurbano.
    Ou seja enquanto a Europa inteira, países da Ásia e até os americanos que amam gastar pneu e petróleo também já estudam ampliar seu transporte de passageiros sobre trilhos, nós brasileiros, os maiorais do mundo, ficamos discutindo a viabilidade econômica do trem.
    A gente tem medo, daquilo que não conhecemos! Daí tanto questionamento ao TAV, e aos VLTs.

  14. Santiago Wessner disse:

    Há décadas já se prevía que se não fossem feitos os devidos planejamentos e investimentos, no transporte público e nos sistemas viários urbanos, a cidade de São Paulo literalmente pararía. Pois bem, as décadas se passaram, as autoridades fingiram que estava tudo bem, empurrou-se com a barriga e com discursos além do que se devería, e agora estamos como estamos.
    Infelizmente o que mais temos assistido são planejamentos e investimentos errantes, imediatistas, amarrados muito mais à cronogramas políticos-eleitoreiros e pouco preocupados com soluções verdadeiras. É o caso de vários viadutos e túneis, e de avenidas de fundo-de-vale, que criam um enorme impacto midiático-eleitoral, mas que servem apenas para mudar os engarrafamentos de lugar e trazem pouquíssima ou nenhuma solução prática. Um exemplo recente é o polêmico, e questionável, alargamento das Marginais do Tietê, ao custo de bilhões de Reais, com o declarado objetivo de desafogar o tráfego nessas vías – Ora, mas já não se está investindo outros tantos bilhões de Reais no Rodoanel, cujo objetivo é principalmente o de aliviar tráfego das Avenidas Marginais??? Aliás, o próprio Rodoanel em sí já apresenta uma preocupante falha de projeto, pois o seu traçado circunda a metròpole através dos subúrbios, conectando-se com as rodovias no ponto em que estas já são praticamente avenidas urbanas, e por conta disso já apresenta congestionamentos em vários acessos e saídas, pois acabou tornando-se uma atraente alternativa de tráfego urbano para os moradores dos municípios da grande São Paulo.
    Ao invés de um “rodo-anel” o mais correto tería sido implantar conjuntos de conexões e corredores rodoviários pelo interior, que permitissem aos motoristas desviarem da grande São Paulo bem antes de chegar à ela. Um bom exemplo é a Rodovia Dom PedroI, que comunica diretamente o Vale do Paraíba à região de Campinas. Tudo bem, a Dom PedroI já está bastante carregada e precisaría ser redimensionada, mas é um perfeito exemplo de traçado rodoviário que agiliza o trânsito interior-interior e ao mesmo tempo evita saturação ao trânsito paulistano.
    Voltando ao trânsito urbano, uma solução que certamente amenizaría o trânsito paulistano sería um forte investimento na engenharía de tráfego. Ou seja, investir em semáforos inteligentes, redequar mãos de direção em várias ruas a fim de se criar novos corredores de tráfego, retirar as absurdas vagas de zona-azul das principais ruas e avenidas, tornar mais decente a sinalização de trânsito, dentre outros conjuntos de medidas triviais, que certamente melhoraríam muito as condições de trânsito em nossa cidade, ao menos por um bom tempo. Obviamente lembrando sempre que, a solução definitiva está invariavelmente atrelada a planejamentos sérios e investimentos efetivos nos transportes públicos, estes sim capazes de desafogar definitivamente o trânsito das grandes cidades.
    Concordo com o Dalmo que, por melhor que fosse o tranporte coletivo, em muitos casos os automóveis precisarão continuar fazendo parte do dia-à-dia de muitas pessoas, devido às rotinas, aos compromissos, e à funções características da profissão, em que é exigida uma agilidade e flexibilidade além daquela que os transportes coletivos podem propiciar. No entanto, o que congestiona o trânsito não são exatamente as pessoas que precisam impreterivelmente do automóvel, mas sim as multidões que precisam colocar diariamente os seus automóveis nas ruas devido à precariedade, ineficiência e insuficiência dos transportes coletivos.
    Enquanto isso as autoridades continuam fazendo de conta que tudo funciona bem, e nos dizem “deixe o carro em casa, e vá de metrô”(como se o metrô não estivesse saturado), ou ainda “deixe o carro em casa e pedale a sua bicicleta”(como se as ruas de São Paulo fossem iguais às de Paris).
    Eles lá em seus gabinetes refrigerados, no mundinho do “faz-de-conta”, e nós aqui fora, nas ruas e avenidas do mundo real!!!

  15. Dalmo disse:

    É isso Santiago, está faltando principalmente Planejamento, mas isso, ainda não é tudo, teorias e ferramentas do planejamento, estão a disposição dos Especialistas, mas os egos impedem o uso de forma racional.
    O rodoanel é uma obra necessária, para aqueles que pretendem principalmente atingir o Porto de Santos, vindos do interior, não é a solução para os problemas de transporte da cidade de São Paulo, nem da região metropolitana, vai fazer o mesmo papel da Rodovia D. Pedro I.
    Porém o dinheiro que estão investindo nas marginais, deveria ser investido em Metro ou na conclusão do pequeno rodoanel, planejado na década de 60, que compreendia as marginais, a Avenida dos Bandeirantes, Avenida Tancredo Neves, Juntas Provisórias e Salim Farah Maluf, eis aqui um exemplo de planejamento abandonado.
    Outro seria a transformação das Avenidas Washington Luiz e Interlagos no mesmo padrão das avenidas Vinte e Três de Maio e Rubem Berta.
    Mas o mais importante para nós que aqui moramos seria mesmo o investimento em transporte público confortável e seguro, além da pontualidade.

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