Arquivo de abril de 2013

Grãos demais, trens de menos

sexta-feira, 12 de abril de 2013

De repente juntou tudo: a pior seca dos últimos 50 anos nos Estados Unidos, prejudicando a colheita dos nossos principais concorrentes;  uma safra recorde de grãos de 185 milhões de toneladas no Brasil; a lei 12.619,  que restringe a jornada de trabalho dos caminhoneiros, e a disparada conseqüente nos fretes rodoviários. Seria o caso das ferrovias esfregarem as mãos diante da oportunidade. Fretes ferroviários podem ser mais competitivos (aliás, estão tabelados pela ANTT), trens são mais confiáveis e mais fáceis de descarregar nos terminais, transportam mais, não provocam acidentes, não impactam o meio ambiente, etc, etc. Só que, infelizmente,  não vai acontecer. No quadro atual, as ferrovias não tem capacidade para fazer mais do que estão fazendo, muito menos de acompanhar a expansão dos grãos.

 A participação do trem no transporte de grãos, que cresceu nos primeiros 10 anos de concessionamento, encolheu nos útimos cinco anos tanto na soja como no milho. Em 2008, mais da metade – 51,0 % — da soja em grão seguia de trem. Ano passado, ficamos em 45,3 %, e este ano — com a previsão de exportarmos cerca de 40 milhões de toneladas — só Deus sabe. No milho, a tendência á parecida, embora menos acentuado, já que os volumes são menores e o crescimento mais recente. Mas a curva é a mesma: 66,2% de participação da ferrovia em 2008, 64,6% em 2012. Este ano devemos exportar algo em torno de 25 milhões de toneladas de milho, e vai ser preciso muita sorte para manter a participação do ano passado. E aí vamos ter que ver de novo aquelas matérias de filas de caminhões nos portos, agora junto com filas de navios esperando a hora de atracar. 

Volta a constatação que as ferrovias fizeram muito nos primeiros dez ou quinze anos de concessão, mas que, assim como a Rede Ferroviária e a Fepasa no seu tempo, o modelo de negócio esgotou-se. Não há como esperar que os concessionários, que não são donos da via, e que podem ter que devolver suas concessões,  realizem o investimento que o país precisa. Sim, a Vale e a MRS estão duplicando extensos trechos de suas malhas e fazendo crescer a capacidade para transportar minério. Mas e a safra? E o resto?  

Todo mundo sabe que temos um gargalo de infraestrutura. E está ficando claro que  o problema só será aliviado quando, de uma parte o Estado, e de outra o setor privado – não só os concessionários, mas clientes diversos, operadores, bancos, empreiteira – trabalharem juntos por uma solução. O Estado tem dado todas as demonstrações de interesse e disposição para o risco. Falta só convencer o outro lado.

 Soja em grãos (em 1.000 ton)

                              2012            2011            2010            2009         2008       

Exportação        32,91             33,79           29,00         28,04         24,51              

Ferrovia            14,92             15,98           15,41         13,57         12,49        

Part  %                45,33             47,29           53,13         48,40         50,96        

Fonte: ANTT e AliceWeb

Milho em grãos

                               2012            2011            2010            2009         2008       

Exportação        19,77           9,49            10,48             7,78        6,43       

Ferrovia               12,77           5,97              7,35             5,64        4,26         

Part %                 64,59           62,91          70,13            73,49      66,25     

Fonte: ANTT e AliceWeb