Arquivo de maio de 2012

A vez dos clientes

segunda-feira, 28 de maio de 2012

O jogo de forças entre os clientes e as operadoras das ferrovias de carga, está começando a mudar, claramente em favor dos clientes. Desde o ano passado, com a publicação das resoluções da ANTT sobre o novo marco regulatório, as negociações tarifárias tornaram-se mais favoráveis aos clientes do que nos últimos 15 anos, ou seja, desde o início das concessões. E agora em 2012, com a próxima fixação formal dos novos tetos de referência, hoje em fase de audiência pública, tudo indica que haverá uma redução real das tarifas. Os clientes poderão realizar o objetivo longamente acariciados  de  “descolar” as tarifas ferroviárias das tarifas rodoviárias, e obter uma  parte expressiva dos ganhos de produtividade registrados pelas operadoras desde o concessionamento. Os novos tetos, segundo antecipou Noboro Ofuji,  da ANTT, são, em média, 40 por cento inferiores para granéis e 15 por cento inferiores para carga geral.

Isso tudo está acontecendo antes mesmo da aplicação dos novos  direitos dos usuários no que diz respeito a utilização da capacidade das ferrovias, notadamente o direito de passagem.  Conforme diz o marco regulatório em vigor, depois de constatada capacidade ociosa em qualquer trecho, o cliente pode solicitar atendimento para suas cargas, e a operadora será obrigada a atender. Mesmo que não haja  capacidade ociosa, o cliente poderá investir para gerar capacidade adicional e então passar com seus trens.

Isto tem acontecido expontâneamente em vários casos, desde o tempo da Rede e da Fepasa, com a CBA no escoamento de bauxita, a MBR na conclusão da Ferrovia do Aço, ou a CSN no projeto de Casa de Pedra. Agora aconteceu de novo, com a Cosan, que aparelhou toda Malha Paulista da ALL para transportar açúcar. Esta entrada de novos players é altamente benéfica para  as operadoras, os clientes, a indústria de material ferroviário e o País. No entanto, antes do marco regulatório, somente clientes do porte dos aqui citados teriam disposição para investir grandes somas em melhoria de via, construção de terminais e aquisição de frota. Os menores, ou os menos dependentes, hesitariam.

A expectativa é que continuem hesitando por algum tempo. Investir em logística não é o negócio dos exportadores de soja ou das fábricas de cimento. Inicialmente, os clientes irão buscar os ganhos tarifários permitidos pelos novos tetos de referência da ANTT.  As operadoras, por sua vez, reconhecerão que os tempos mudaram e começarão a dar mais atenção a novas oportunidades,  ao transporte de carga geral por exemplo, como já estão fazendo agora. Em paralelo, e mesmo que lentamente, irá se formando a nova malha de bitola larga, hoje em construção pela Valec, a começar pelo trecho sul da Norte-Sul. Esta nova malha vai gerar operadores independentes, conforme os plano do Ministério dos Transportes. Esses operadores vão querer entrar nas malhas existentes, ou fazer com elas tráfego mútuo. E assim o negócio ferroviário vai crescer e se multiplicar.

As realizações das empresas operadoras que assumiram o grande risco de gerir a malha estatal foram notáveis, e transformaram o cenário do transporte ferroviário de carga no Brasil. Está na hora disso acontecer de novo.