Arquivo de janeiro de 2012

A hora é essa

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

No final de outubro, o Ministério da Saúde informou que o número de vítimas fatais em acidentes de trânsito no Brasil subiu 8% em 2010, para 40.610 mortos, em tendência crescente. A média do crescimento anual de acidentes fatais nos últimos oito anos ficou bem abaixo, em 3%.

Na mesma data, o Ministério de Minas e Energia divulgou o Balanço Energético Nacional, mostrando que o consumo de energia pelo transporte rodoviário continua aumentando, chegando, em 2010, a 26,6% do consumo total do País, medido em Toneladas Equivalentes de Petróleo — TEP. A tendência é também crescente. Em 2000 a participação do rodoviário no consumo ficava em 24,9 %.

Nada disso é novidade, todo final de ano os jornais publicam. Mas, em que pese a capacidade de tolerância do ser humano, o fato das más notícias ficarem se repetindo não deveria diminuir nossa disposição de consertar as coisas.

Não se pode impedir que os brasileiros comprem cada vez mais automóveis, caminhões e motocicletas. É um desejo natural, permitido pelo aumento da renda, e estimulado pela propagando maciça da indústria automobilística, quando não pela redução de IPI por parte da Fazenda.

Ao mesmo tempo, como mostram as tendências acima indicadas, é ilusório esperar que as mortes e o consumo de combustível sejam contidos por mais segurança no trânsito e combustíveis alternativo. A frota de veículos mais do que dobrou nos últimos oito anos, e contra esse fato não há argumentos.

Nada que o governo tenha feito até hoje no sentido de reduzir o impacto negativo do automóvel é capaz de fazer face à lavagem cerebral que a indústria  exerce todos os dias sobre a população. Segundo a insuspeita publicação Meio & Mensagem, a indústria automobilística  investiu em publicidade, em 2010, RS 2 bilhão 440 milhões, valor equivalente a todo o investimento realizado pelas ferrovias de carga no mesmo ano.  Isto a coloca em terceiro lugar no ranking por setor, depois de comércio de varejo e serviços ao consumidor. E em primeiro no crescimento sobre 2009: em 2010 o investimento em publicidade da indústria automobilística cresceu nada menos que 37 %.

O transporte metro-ferroviário não costuma entrar nessas discussões. Não falamos com o Ministério da Saúde sobre acidentes de trânsito, nem com o Ministério das Minas e Energia sobre consumo de combustível. Falamos, mas na defensiva, com as autoridades em meio ambiente, para quem a construção de ferrovias e metrôs está exatamente no mesmo nível que a construção de shopping centers e condomínios.

A verdade é que nós ferroviários e metroviários não participamos dos programas do governo para diminuir os custos sociais do transporte. No entanto, transportamos por dia útil perto de 6 milhões de pessoas nos metrôs do Rio e São Paulo e nos trens metropolitanos de 12 capitais.  Transportamos também 1 milhão e 200 mil toneladas de carga por dia, considerando a produção média de todas as ferrovias.

Queremos e podemos ajudar na melhoria desses indicadores. O presidente do Metrô de São Paulo, Sergio Avelleda, vê a situação com clareza e diz que hoje não faltam recursos para investimento nos governos estaduais, no governo Federal e nas empresas privadas. Mas que isso não vai durar para sempre. A solução para o problema da mobilidade nas grandes cidades e para a logística da carga passa necessariamente por mudanças institucionais e políticas, diz. As organizações ferroviárias e metroviárias precisam estabelecer alianças com as prefeituras, os planejadores urbanos, a classe política e o governo Federal. Precisamos nos articular. Um país se torna desenvolvido não por seus automóveis  e seus aparelhos de televisão mas pela infraestrutura de que se dota.