Arquivo de julho de 2011

Coragem para mudar

domingo, 3 de julho de 2011

Esta não é uma coluna política, nem é um jornalista político que vos escreve. Mas não contenho meu entusiasmo – ingênuo talvez – com a freada de arrumação de nossa Presidenta nos interesses constituídos, e não tão constituídos assim, dos partidos políticos de Brasília. Entusiasmo porque a mim, e a muita gente, a defenestração do ministro Palocci soa como uma prova de coragem que nunca antes nesse país, pelo menos nos dois últimos governos, ninguém assistiu.  Comparo-a – e é o único exemplo que me ocorre – ao que o secretário de Segurança do Rio, José Beltrame, está fazendo nas favelas e principalmente na polícia carioca. Gostaria de ver mais disso, gente com coragem no governo, não só para confrontar mas também para defender e adotar políticas transformadoras. 

Aqui na nossa área, política transformadora significa fazer o contrário do que fizeram os governos nos últimos 60 anos, desde Juscelino Kubitschek até Lula, inclusive. Significa redirecionar para os trens metropolitanos, metrôs e ferrovias de carga o enorme esforço dispendido em favor da indústria automobilística. Seria preciso um historiador-economista para levantar quanto o governo colocou em estradas de rodagem e incentivos para os fabricantes de automóveis e caminhões naqueles 60 anos. Só a redução do IPI para carros e caminhões novos em função da crise de 2008 – e que durou todo 2009 e 2010 – custou aos cofres públicos R$ 3,2 bilhões em renúncia fiscal, segundo a fonte insuspeita do ministro Mantega.  No mesmo período, o orçamento de investimento  do governo Federal no setor ferroviário ficou em R$ 235 milhões, segundo a ANTF, 14 vezes menos. Nem somando todo o investimento federal em ferrovias desde o concessionamento se chega perto daquele número.

É muito bonito falar em  Plano de Revitalização das Ferrovias  e  em PAC, mas a verdade é que o avanço inegável do transporte metroferroviário no Brasil nos últimos 15 anos deveu-se ao investimento privado, e não público.  Se algum governo investiu em ferrovias foram os estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, na expansão de seus metrôs.  Porque na construção das ferrovias de carga, aquelas que estão efetivamente sendo construídas – Norte-Sul,  Transnordestina e Ferronorte —  o investimento está saindo das empresas privadas — Vale,  CSN e ALL – e das instituições financeiras que elas conseguiram reunir.  A compra de material rodante idem, idem para a remodelação da via, sinalização e controle.  Com todos os percalços que isto significa: em 2009 e 2010 a fabricação de carros de passageiros, vagões e locomotivas caiu 32,9 % — enquanto a fabricação de automóveis, ônibus e caminhões cresceu 13,5 5.

Ou seja, não existe uma política de incentivo ao transporte ferroviário no Brasil. Para mudar isto – e para reduzir as emissões, os mortos no trânsito, os engarrafamentos e os buracos nas estradas – a Presidente Dilma vai precisar de tanta coragem — e muito mais tempo –  quanto demonstrou possuir  ao mudar o ministro da Casa Civil. Precisamos disso.