Arquivo de janeiro de 2011

A volta da Ad-Trem

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Em boa hora decidiu o governo Federal adiar o leilão do TAV. Não fosse assim, correríamos o risco de ver o projeto desmoralizado, com um leilão vazio ou, pior, com um concorrente só (nada contra os coreanos). A lição que fica é que não adianta forçar o mercado.  Foi assim no Trem de Aeroporto e foi assim na Cesp, onde não apareceu ninguém. Foi assim também  em Belo Monte, onde acabamos com um consórcio 78% da Eletrobras, Petrus, Funcef e Previ. E, sinceramente, ninguém vai querer andar num trem da Valec a 350 km/h.

Não haveria problema no Estado assumir a construção do TAV. Foi assim em todos os países do mundo, com exceção única de Taiwan. O ruim é que, sem a presença da iniciativa privada para fiscalizar – e com o vivo interesse despertado em nossos meios políticos – o trem sairia muito mais caro e levaria muito mais tempo para fazer. A iniciativa privada é necessária para dar consistência – ia dizer seriedade – ao projeto. Não para custeá-lo, que empresa privada nenhuma vai entrar num risco desse tamanho.  Mas sem um projeto de engenharia que permita calcular o custo; sem garantia satisfatória de demanda,  e sem uma estimativa razoável das contingências da obra, as chances de dar errado de novo são,  infelizmente, elevadas.

O TAV é importante para o Brasil. O corredor Rio-São Paulo apresenta uma situação esquizofrênica de saturação nas pontas e vazio no meio. A fronteira entre os dois estados mais importantes do país é um deserto, enquanto as pontas as duas capitais estão saturadas. Vem aí a Copa e os Jogos Olímpicos. Pelo menos entre Campinas/Viracopos, São Paulo/Guarulhos e São José precisa existir um trem de passageiros.  Que seja sim símbolo de modernidade e orgulho nacional, por que não? O trem de alta velocidade, além de um meio de transporte,  será a prova material de que o Brasil é um país avançado.  Por isso,  aliás,  o projeto existe e tem apoio do governo.

Então, encontramo-nos na seguinte situação:  o projeto precisa da iniciativa privada sim, e sua contribuição principal será:  1)  evitar que o custo suba para os cornos da lua, administrando a obra e  a operação por critérios empresariais, como faz hoje em diversos empreendimentos de transporte ferroviário de carga e de passageiros, tais como a expansão do Metrô Rio, a PPP da Linha 4 ou o investimento da Rumo/Cosan no escoamento de açúcar; e 2)  evitar a dependência das  liberações de verba por critérios políticos (na melhor das hipóteses)  ao tomar dois terços do valor da obra (ao cálculo atual, portanto com reservas) sob a forma de empréstimo  do BNDES.  Do Estado, o projeto do TAV precisa que faça o resto, ou seja, que crie um quadro institucional e econômico bastante confortável – a palavra é essa mesmo – para atrair os participantes privados.

A recriação da Adtrem – Agência de Desenvolvimento do Trem Rápido entre Municípios – está sendo feita com esse propósito. A  Agência surgiu em 2006, animou a discussão do TAV, viu o projeto surgir e se autoextinguiu em 2008, dando sua tarefa por encerrada. Conheço bem a história porque fui – e continuo sendo – um dos fundadores. Ela volta agora para fazer a ponte entre os empresários e o governo, o que significa tentar convencer aos primeiros a não pedir tudo e ao segundo a oferecer mais alguma coisa. Desejem-nos boa sorte.