Arquivo de julho de 2010

Os próximos 70 anos

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Os 70 anos da Revista Ferroviária viram a quase extinção desse modo de transporte no Brasil, substituído em tudo, ou quase tudo, pelos modais concorrentes. Perderam as ferrovias o mercado de carga geral, o transporte de passageiros interurbanos e até mesmo os bondes. O que sobrou, com raras exceções, foi uma malha obsoleta e material rodante mal conservado, administrado por critérios políticos, tanto na Rede Ferroviária Federal como na Fepasa.

Hoje vemos que as ferrovias não morreram, mas ao contrário, ressurgiram com força, tanto na carga como nos passageiros, no Brasil e no resto do mundo. Cabe perguntar como isso aconteceu, e qual o futuro das estradas de ferro.

A primeira constatação é que é muito difícil ver todo um setor industrial quase desaparecer para depois ressurgir com novas promessas. As carruagens não vão voltar, nem os dirigíveis, nem o telégrafo. E as ferrovias — a locomotiva puxando um trem de rodas de aço sobre trilhos de aço — estão em pleno desenvolvimento neste início de século XXI, quase duzentos anos depois de terem sido inventadas.

Por que um setor dura tanto tempo? Em primeiro lugar, porque foi capaz de se adaptar rapidamente às mudanças mais radicais. Um automóvel de hoje é muito mais parecido com um Ford Modelo T do que uma locomotiva de alta velocidade é parecida com uma Maria-fumaça. O automóvel continua com o mesmo motor de combustão interna, o mesmo sistema de direção e de transmissão. Se o motorista se distrai, bate. Já o trem passou do vapor para a eletricidade e desenvolve 360 km/h com absoluta segurança. A mesma coisa se compararmos caminhões com trens de carga, ou ônibus com metrôs. A evolução da tecnologia sobre trilhos foi muito além da tecnologia automotiva (ao contrário do marketing, onde o automóvel ganha longe).

Pode-se responder dizendo que a ferrovia mudou para não morrer, enquanto o autmóvel foi tão bem aceito que nunca precisou de grandes transformações, fora o desenho dos paralamas. E foi isso mesmo que aconteceu. O automóvel foi tão bem aceito que, sem inovar, inundou ruas, avenidas e calçadas, ocupando o espaço dos pedestres, provocando gigantescos congestionamentos e poluindo a atmosfera. Hoje é o grande vilão ambiental e o inimigo número 1 dos prefeitos de todas as cidades, a começar por São Paulo. Enquanto isso a ferrovia começa a ser vista como um sistema mais racional e mais econômico, tanto de energia como de espaço, dois bens escassos no mundo de hoje. E este é o segundo motivo para acreditar no crescimento: a ferrovia tem baixo impacto no meio ambiente.

O terceiro motivo qualquer um vê quando sai à rua, ou lê os jornais: com crise ou sem crise a economia mundial cresce, novas populações são incorporadas ao mercado, os bens e serviços ficam mais accessíveis e todo mundo quer o seu carro, a sua casa e a sua viagem a Nova Iorque, nessa ordem. Só que não cabemos todos nos aeroportos nem nas estradas. E não é só nas cidades brasileiras. Todos os aeroportos do mundo – e uma boa parte das estradas – estão congestionados. Os sistemas que deslocaram o trem na segunda metade do século passado – e aeroviário e o rodoviário — simplesmente não dão conta da demanda. É nessas circunstâncias que o trem volta a ter diante de si um longo cenário de expansão.