Arquivo de novembro de 2009

Um carro é um carro

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Gerson Toller, /jornalista

“Não é o mercado que agoniza, é uma forma ultrapassada de capitalismo que desaparece porque deixou de ser desejável”.

Pascal Bruckner, escritor e ensaísta.

Ninguém apura esse dado, mas existe um fenômeno muito novo acontecendo entre nós: os jovens da classe média para cima, os mais bem informados, entre os 18 e vinte e poucos anos, não querem mais tirar carteira, nem dirigir, e muito menos ter carro. O que era impensável há três gerações passadas está aí para ser visto:  é o não desejo de mobilidade – eles preferem ficar na internet; a não necessidade de independência, que eles já tem de sobra, e a ausência das fantasias do banco de trás do automóvel. Os três argumentos mais fortes dos vendedores de automóveis.

No meu tempo, no Rio de Janeiro, a única maneira de ficar sozinho com uma garota “direita” era parar o automóvel de noite, de frente para o mar, tudo escuro, e ficar assitindo “corrida de submarino”. Hoje é proibido estacionar de frente, está tudo iluminado, e se você não é multado pelos guardas é assaltado pelos pivetes. Muito mais seguro e confortável é o quarto dela na casa dos pais.

Como ninguém parece interessado em produzir estatísticas sobre quem não compra automóvel (algum leitor conhece?), fiz uma pesquisa com ala jovem que me cerca e obtive as seguintes respostas:

- é muito chato tirar carteira;

- não gosto de dirigir;

- prefiro gastar meu dinheiro com outras coisas;

- prefiro investir na bolsa (a questão do dinheiro parece mais importante do que nunca);

- prefiro andar de taxi.

Admito que não é um fenômeno universal, principalmente nas famílias onde o carro é, ainda, sonho de consumo. Nada cresceu tanto este ano, movido pela redução do IPI, do que a venda de carros 1.000 (76.6 % de aumento nas vendas entre janeiro e outubro). Mas aquele poder de sedução dos anos dourados,  do “meu carro é vermelho / só uso espelho pra me pentear”, foi embora junto com o “splish splash fez o beijo que eu dei”. Ninguém mais vai ao cinema para dar um beijo, e o carro é só um carro. Que aliás está ficando cada vez mais difícil de dirigir no trânsito, e que custa uma porção de taxas e pedágios, e que ainda por cima não pode ser usado nas baladas por causa da Lei Seca.

Me lembro de mim mesmo, com uns 16 anos, olhando para um Aero Willys  (juro) e fazendo o propósito de ter um daqueles quando crescesse. Será que isso acontece hoje em dia? Não sou publicitário, mas acho que os garotos de 16 querem mais ficar ricos e famosos. E se pensam em carro, é numa limo com motorista, que eles gostariam sim de alugar.

Então, minha gente, vamos investir em transporte público. Pensem o seguinte: a Jovem Guarda, aquela do Roberto e do Erasmo,  está indo embora. E os que estão chegando  não acham automóvel assim tão importante. Também não gostam de ler jornal de manhã, nem de tomar café, nem de fumar cigarro. Não tem opinião política mas sabem que o mundo está derretendo por causa do aquecimento global, e que essa bomba vai estourar no colo deles.  São novas pessoas. Qualquer vendedor de qualquer produto ia adorar isto: consumidores jovens, modernos e ligados. Criadores de tendência. Que prefeririam andar num VLT todo de vidro com wifi, por exemplo, a comprar mais um automóvel para botar ruas. É só fazer a pesquisa. E, naturalmente, ter os VLTs para oferecer à galera.

Tipo Colômbia

quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Casa abandonada no corredor da 9 de Julho, em São Paulo, no bairro nobre Jardim Europa.

Casa abandonada no corredor da 9 de Julho, em São Paulo, no bairro nobre Jardim Europa.

Como carioca morando em São Paulo, é fácil perceber as distâncias que nos separam. Não é só no supermercado (banana d’água aqui se chama banana nanica). É também no valor que se dá às coisas. Um jornal paulistano, por exemplo, é capaz de noticiar um festival de vinhos no lounge – palavra mágica em São Paulo – do Hyatt – outra palavra importante – “com direito a pôr-do-sol e vista o dia inteiro para a Ponte Estaiada”. Impossível no Rio de Janeiro, onde não tem Hyatt nem as pessoas acham que obra civil é paisagem. Carioca é, digamos, desprendido e não liga para essas coisas.

Chegando ao transporte sobre trilhos, a diferença é a seguinte: em São Paulo a moda, o máximo, o “top de linha” agora é o monotrilho. Tem monotrilho chique, entre o Aeroporto de Congonhas e o Morumbi; tem para a classe B, entre Vila Prudente e Cidade Tiradentes; tem para pobre, entre Jardim Ângela e Santo Amaro, que São Paulo dá oportunidade a todo mundo. Uma verdadeira coqueluche de monotrilho. Ninguém falava disso um ano atrás, e agora São Paulo parece que vai ter mais monotrilho do que Tóquio.

No Rio de Janeiro, muito ao contrário, a solução é o corredor de ônibus, ou melhor, o Bus Rapíd Transit (BRT). De nada adiantou ganhar a sede da Copa e das Olimpíadas que o metrô só vai crescer quatro quilômetros, de Ipanema até a Gávea. Para chegar à Barra da Tijuca, tanto a partir da Zona Norte como da Zona Sul e da Zona Oeste, vai ser de ônibus mesmo. A cidade vai ganhar 72km de corredores de ônibus.

Eu sinceramente prefiro o jeito over dos paulistas a essa displicência carioca. Corredor de ônibus numa altura dessas? Tipo Colômbia? (Bogotá tem o mais celebrado BRT do mundo, chamado Transmilênio.) Para construir barreiras ao longo das avenidas e deteriorar as duas margens? É que não existe no Rio, mas andem a pé num corredor de ônibus em São Paulo para ver o que acontece dos lados. Não tem uma banca de jornal, uma padaria. Ninguém quer morar lá. Como é impossível parar um automóvel, as casas e os prédios cimentam os jardins para virar estacionamento. E como a calçada é deserta, os muros sobem e as janelas se estreitam, mesmo porque não tem nada para olhar do lado de fora. É difícil atravessar, a pé ou de carro, porque o trânsito ou está congestionado ou – no caso de corredores segregados — em alta velocidade, com prioridade em todos os faróis, digo, sinais. É um corte no meio do tecido urbano.

Dirão que no Rio não vai haver corte nenhum porque os corredores vão ser abertos em encostas e na periferia. E, realmente, em Curicica e na Penha vai ser difícil degradar o que já não existe.

Mas tem a questão da capacidade: um VLT (não um monotrilho, please), substituto natural do ônibus em corredor, pode aumentar ou encolher de tamanho, já que é um trem. Pode até ser engatado um no outro, dobrando a capacidade. Pode também reduzir o intervalo com melhoria na sinalização. Em São Paulo, o headway da Linha 7 da CPTM em hora de pico vai cair de 12 para três minutos, com introdução da ATO (Operação Automática de Trens).

Gostaria que, na hora de fazer escolhas desse tipo, meus conterrâneos cariocas fossem um pouco mais paulistas.

Convite aos leitores do blog

domingo, 8 de novembro de 2009

Convido a todos a visitar a Feira Negócios nos Trilhos, organizada pela Revista Ferroviária, e que acontece entre 10 e 12 de novembro, no CenterNorte, em São Paulo. Vocês verão desde o que há de mais moderno, como um VLT Citadis da Alstom, a uma locomotiva a vapor de 1908 da EF Perus-Pirapora. Visitem o stand da Revista Ferroviária para nos conhecermos pessoalmente.

Sugiro que façam o credenciamento on line através do nosso site, em www.revistaferroviaria.com.br

Cordialmente,

Gerson Toller

Revista Ferroviária