Arquivo de setembro de 2009

Trem de Alta Velocidade RJ-SP

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Caros amigos,

Li recentemente um artigo do Jornal Estado de São Paulo, datado de 23/08/09, sobre uma possível implantação de uma linha de trem de passageiros de alta velocidade – “trem-bala” -, ligando essencialmente o Rio de Janeiro a São Paulo. Tenho acompanhado um pouco por alto o assunto e gostaria de emitir uma opinião como cidadão brasileiro com alguma experiência na área (não exatamente de análise de viabilidade de projeto ferroviário, mas de projetos ferroviário sem geral). A princípio, é de certa forma empolgante para mim, que sempre trabalhei no mercado ferroviário, perceber que o país demonstra interesse em um projeto arrojado e no “estado da arte” nesta área. A população, inclusive, aparentemente tem se mostrado receptiva à iniciativa, talvez por um sentimento saudosista ou por comparação com outros países. É interessante que sempre que surge o assunto de ferrovia quando estou entre brasileiros, me questionam, por eu ser da área e teoricamente entender do assunto, porque as ferrovias de passageiro sumiram e porque o governo não investe nisto. O tema é rico e sempre tento passar a quem me pergunta, algo mais realista e menos saudosista ou de analogia com outros países sobre a viabilidade de alguma iniciativa neste sentido atualmente no nosso país.

Bem, indo então ao assunto específico do “trem-bala” brasileiro, tenho dúvidas sobre sua viabilidade e necessidade. Não tenho números detalhados, muito menos os estudos realizados, mas a impressão que passa é que temos um projeto de difícil viabilidade econômica de implantação e posterior operação e manutenção. Obviamente seria necessário avaliar os detalhes do projeto para acreditar em sua viabilidade, mas, ok, vamos acreditar que o governo tenha alguns bilhões de dólares em caixa e que consiga implantar o projeto e liberar a ferrovia para operação. A primeira questão, que parece saltar aos olhos, seria sobre a prioridade de um projeto destes neste momento. Quem realmente seria beneficiado com o projeto? Um trem de alta velocidade Rio-São Paulo é realmente um projeto que a sociedade brasileira precisa agora? Acredito que um investimento deste porte poderia ser mais bem destinado para outros projetos – ferroviários ou não – que ajudassem na logística de transporte do país, considerando o atual nível de infra-estrutura e carência que o país se encontra. Seria como um sujeito querendo comer caviar todo final de semana quando mal consegue comprar o arroz com feijão do dia-a-dia. Países europeus e asiáticos que possuem tal tipo de tecnologia, assim fizeram ou estão fazendo por estarem em condições muito diferentes da nossa – diferentes níveis de infra-estrutura e desenvolvimento destes países, diferentes realidades – o Japão, por exemplo, tem curtas distâncias, alta concentração de população em todas linhas e uma história de ferrovia de passageiros consistente e contínua; a China tem uma população quase 10 vezes maior que a nossa numa área quase igual, está construindo tudo agora, tem muito caixa para investimento, tem tecnologia (estive num congresso ferroviário em Shanghai há cerca de 2 meses e fiquei impressionado com a evolução “caseira” deles) e recurso farto a baixo custo.

Outra questão que me deixa curioso é entender como os custos de operação e manutenção do trem-bala brasileiro seriam pagos. É difícil acreditar que faturamentos baseados em uma passagem com valor em torno de R$200,00 consigam pagar os altíssimos custos de uma ferrovia de alta velocidade de mais de 450 quilômetros, passando por vários túneis e viadutos. Os custos de material rodante, via permanente, sistemas de sinalização, sistemas ao longo da via, sistemas de comunicação, centro de controle, terminais e pessoal serão consideráveis. Sem um subsídio forte do governo tenho a impressão que ou o operador ficará deficitário ou a passagem terá que ser substancialmente aumentada, o que acabaria afastando os passageiros. É também muito suspeito o prazo de implantação previsto, conforme foco do artigo publicado no Jornal. Mesmo que tudo dê certo durante a implantação (o que é pouco provável), o prazo de 2014parece simplesmente infactível. E posso adiantar que, mesmo sem verificar, os custos de implantação devem estar subestimados. Ficaria muito surpreso se o projeto não extrapolar consideravelmente os custos e prazos estimados.

Estou há mais de 20 anos na área ferroviária e atualmente trabalho nos Estados Unidos, no TTCI (Transportation Technology Center, Inc), que é uma empresa essencialmente suportada pela AAR (American Association of Railroads), e nosso principal papel é suportar as ferrovias americanas em desenvolvimentos e decisões estratégicas. Um dos projetos que estou envolvido no momento está ligado a análises de capacidade de transporte das ferrovias de passageiro atualmente em operação aqui nos EUA. Obviamente, a curto prazo, estamos buscando soluções práticas e de resultado mais imediato. Há também nos EUA, como devem saber, projetos de implantação de trens de alta velocidade,politicamente fortemente suportados pelo presidente Barack Obama. São 11corredores definidos e alguns já estão em fases de análises e definições, porém, a realidade aqui é bem diferente. Os projetos, na maioria, serão evolução de infra-estruturas existentes e serão passos bem pragmáticos. Mas nem por isto os projetos são inquestionáveis, pelo contrário, há questionamentos consistentes como os da Reason Foundation (www.reason.org). Apesar disto,entendo que aqui nos EUA, mesmo que os custos/prazos extrapolem e o governo também acabe subsidiando o custo de operação, o momento está correto. O país é totalmente estruturado para ferrovias de carga de longa distância bem como para ferrovias de passageiro urbanas e interurbanas (curta-média distância) – o Brasil não. Não sei se há alguma relação entre a decisão dos americanos e a do Brasil, mas são duas realidades também completamente diferentes.

Novamente ressaltando que não tenho os detalhes, a impressão é que este projeto de trem-bala brasileiro deverá gerar bons resultados apenas para os políticos envolvidos, para os fornecedores, para alguns poucos usuários privilegiados de classe média para cima e, talvez, para o “ego dos brasileiros”, a um custo absurdo de implantação e custeio. É fundamental que quem estiver tomando as decisões de tal investimento avalie com critério a questão. Acredito sinceramente que o país não precisa de um projeto como este para mostrar modernidade, competência ou para impressionar visitantes. O país precisa sim,impressionar visitantes mostrando que sabe investir corretamente.

Enfim, pode até parecer que uma opinião como esta minha seja retrógrada ou contra o desenvolvimento do país, mas, pelo contrário, acho que o país pode evoluir muito mais com efetivo retorno para toda sociedade com projetos mais “pé no chão”, mais voltados para uma visão de médio/longo prazo. Podemos até chegar a ter um projeto de um trem-bala como este, mas é necessário chegar lá passando por passos certos no tempo certo. Parece-me não estarmos dando o passo correto agora.

Ressalto que esta carta não expressa, em nenhum momento, qualquer posicionamento da empresa que trabalho. Ela é exclusivamente minha opinião pessoal.

PauloVieira, Scientist
TTCI – Transportation Technology Center, Inc