Arquivo de agosto de 2009

TAV e transferência de tecnologia

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O concessionamento das ferrovias, de carga e de passageiros, teve grandes méritos, reconhecidos por todos com um mínimo de boa vontade. Mas provocou uma grande perda, cujo efeito só agora vai ficar evidente. No desmonte do Estado ocorrido na década de 90, o que havia de instituições públicas de pesquisa e estudo desapareceu, ou quase, junto com a Rede, a Fepasa e a Vale estatal. Ou seja, a criança foi embora junto com a água do banho.  O principal órgão de estudo e planejamento do governo federal, que era o Geipot, não existe mais; o laboratório de pesquisa do IPT voltou-se para a indústria do petróleo; o CB-6 da ABNT parou de realizar seus encontros nacionais; até o Congresso Panamericano de Ferrovias parou de reunir trabalhos técnicos. Não existe hoje, em nível federal, nenhum órgão do governo voltado para o estudo e planejamento dos transportes ferroviários, no Ministério dos Transportes nem em nenhum outro dos 36 ministérios do governo Lula. O Centran – Centro de Excelência em Engenharia de Transportes -, criado entre o Ministério dos Transportes e o Ministério da Defesa, num bem-intencionado esforço do secretário Paulo Sérgio Passos, desmanchou-se. Não resistiu ao PAC da ministra Dilma. A academia, por seu lado, foi atender a necessidade imediata de mão de obra das operadoras privadas, multiplicando cursos de gestão e produção para engenheiros. Pesquisa e desenvolvimento foram inteiramente deixados de lado, com exceção talvez da Faculdade de Mecânica da Unicamp.

O resultado é que hoje temos aí o projeto do TAV, acompanhado de um sonoro discurso de transferência de tecnologia, e não sabemos nem por onde começar. Transferir qual tecnologia?  Para quem? Com que recursos? Usamos o exemplo da Coreia, que absorveu a tecnologia do TGV da Alstom? O governo da Coreia investiu nisso 100 milhões de dólares e o setor privado, 80 milhões no desenvolvimento do KTX. E, só este ano, o orçamento de custeio do  Instituto de Pesquisa Ferroviária da Coreia alcança outros 82 milhões de dólares, sendo 90 % custeados pelo governo (é verdade que trabalhando no KTX e em outro projetos) . Ora, a primeira encomenda do KTX coreano foi de 46 trens de 20 carros, dos quais 34 fabricados na Coreia. Estes trens  visavam atender uma demanda  várias vezes maior do que a estimada para Campinas-Rio-São Paulo (em 2008 o KTX transportou 38,2 milhões de passageiros).  E na segunda encomenda, hoje em fase de entrega, foram  mais 20 trens de 10 carros.  Não se sabe quantos trens serão encomendados para a primeira fase da linha brasileira, mas é muito pouco provável que justifiquem investimento comparável em desenvolvimento de tecnologia

Como vamos então absorver tecnologia se nem sabemos quantos trens vamos construir e onde? Depois do TAV Campinas-São Paulo-Rio haverá outros? Onde isso está dito, além dos pronunciamentos políticos e das reivindicações dos prefeitos? Em São Paulo, onde existe um plano de transportes metropolitanos, o governo estadual condicionou o fornecimento dos 47 trens vendidos pela CAF espanhola para a CPTM e para o Metrô à construção de uma fábrica, que está hoje sendo levantada em Hortolândia. Boa oportunidade para transferência de tecnologia e desenvolvimento de fornecedores. Já no Rio de Janeiro, onde não existe plano nenhum,  o governo acaba de assinar um contrato para o fornecimento de 30 trens fabricados na  China  sem nada em troca. Nem um parafuso será feito no Estado. Ou seja, dependendo da maneira como o assunto for conduzido  pelo governo, neste caso pelo governo federal, poderemos  chegar a aprender alguma coisa com o TAV, ou simplesmente comprar feito.